Zé Tó era agora empresário mas um empresário peculiar. Era um ex-mutilado, ex-travesti (porque a vida de gestor não se compadece com delírios de cross-dressing), ex-retornado sem aparato. Ex-tudo e mais alguma coisa num carrossel a que alguns chamam "vida", outros chamam "isto", mas que Zé Tó e Cristina Caras Lindas intitulam "dádiva de Deus Nosso Senhor". Na sua peculiaridade residia o charme da sua figura. Na caspa residia o motivo de repulsa (A caspa era muita e os ombros demasiado pequenos.)
A sua vida no seu escritório, localizado entre a Rua Do Ouro e o Rossio, que entretanto tinha extorquido a um velho empresário do tempo da outra Senhora (não, não é o Carlos Castro, é outra), era passada a jogar o jogo das minas (lembrando os seus dias de prótese na perna) no seu computador enquanto uma jovem russa lhe limava as unhas dos pés e massajava-lhe o mindinho ("em movimentos circulares").
Até que algo aconteceu! Zé Tó estava a usufruir de um banho turco fornecido pela Companhia das Águas quando recebeu a pior notícia da sua vida: vinha aí o Monopólio Especial do Mundial de Futebol! Que iria substituir o Rossio pelo Estádio de Gelsenkirchen e a Companhia das Àguas pela Empresa Cortadora de Relvas. E mesmo as habituais notas por cheques-desconto em casas de prostituição clandestinas. Era o desastre para Zé Tó e no entanto ele só conseguia pensar numa conversa que tinha visto na Televisão, no programa de Fernando Mendes. "Então diga-me uma palavra que rime com sapataria?" (indecisão) "Pão".